quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Entrevista com o menino





Entrevista com o menino

L. Ruas*

(Publicado originalmente em PALAVRA DO FINGIDOR
http://palavradofingidor.blogspot.com/)



Quando me contaram pela primeira vez, não acreditei. Graças a Deus, não sou muito crédulo. É verdade que levo em conta certas verdades que, para muitos, é sinal de estagnação mental. Foi por causa dessas verdades que uns amigos meus, não faz muitos dias, me chamaram de ingênuo. Em outras palavras, eles me quiseram chamar de retrogrado ou coisa que o valha. Não faz mal. Eu continuo acreditando nessas verdades. Não são muitas. No máximo umas doze. Isso mesmo. São somente doze. Em quantas coisas você acredita, leitor? É engraçado. Há muitos como você, leitor, que ainda não sabem em quantas coisas acreditam. Não. Não me diga que não acredita em coisa alguma, porque senão você vai ficar incluído entre os que acreditam em mais de doze verdades. Você, talvez, não acredite nas doze verdades nas quais acredito, mas vai ver que acredita em outras. No final das contas, todos nós somos uns grandes crédulos.

Mas, voltemos ao assunto. O que me disseram foi o seguinte: que todos os anos o menino nasce. Você acredita nisso? Nem eu acreditei quando me contaram. Nem eu nem o diretor do jornal. Quando telefonei dizendo-lhe que ia dar um furo sensacional (quando telefonei já estava acreditando... bem, não era bem isso. Eu estava muito curioso) ele deu uma gargalhada do outro lado:

– Ora, vá às favas com o seu furo! Você vem me incomodar com uma tolice destas! Tenho mais o que fazer. Um menino que nasce todos os anos... Isso é bom para cinema.

Mas agora eu estava curioso demais para desistir. Queria ver. Queria saber. Não era possível que tanta gente estivesse tão enganada ou quisesse simplesmente blefar.

À noite, telefonei para uns fotógrafos meus amigos para ver se podiam ir fazer um serviço comigo. Desta vez fui mais prudente não revelando minha intenção e a minha história. Disseram-me que não podiam, era noite de Natal, você sabe, numa noite assim a gente deve ficar em casa com a mulher e os garotos... Alguns me convidaram para ir cear. Muito obrigado, não posso. Eu tenho que fazer este trabalho... Não, não é com ninguém importante, não. Eu é que estou vendo se consigo tirar rendimento novo de assunto muito velho. Me desculpe, não posso sair de casa numa noite de Natal, você compreende, né?...

Sair de casa numa noite de Natal para ir entrevistar um menino era mesmo coisa de gente que não tinha a cabeça no lugar. Quando ia andando pelas ruas escuras e úmidas e passava pelas casas cheias de luz, árvores de natal coloridas, crianças brincando, mesas cobertas de doces e comidas ou pelas igrejas cheias de gente que aguardavam a Missa do Galo, muitas vezes me deu vontade de voltar para casa. Mas não voltei. Eu estaria sendo um ingênuo mais uma vez, mas não fazia mal. As ruas estavam em péssimas condições. Muito escuras e, como chovera bastante, por várias vezes me atolei em buracos cheios de lama. E o lugar era horrível.

Bati palmas. Tudo muito quieto. Não havia choro de criança nem as costumeiras visitas. Um fugidio cheiro de alfazema se perdia no ar. Misturado com cheiro de samambaia. Deve ser aqui. Cheiro de alfazema é criança nova. Depois de alguns segundos um homem apareceu à porta. Com uma lamparina. Vi que era um homem simples e bom. Uns quarenta anos, no máximo.

– Pode entrar, por favor. Ele está lhe esperando.

Está lhe esperando ou o está esperando? Perguntei a mim mesmo. Mas não tive tempo de resolver a dúvida gramatical porque o homem já me havia conduzido para dentro.

A mãe era uma jovem de seus dezenove ou vinte anos. Alguns me disseram que ela era uma vigarista. Não foi essa a minha impressão. Estendeu-me a mão, cumprimentou-me com certa graça cheia de simplicidade e voltou para o seu lugar. Não vi nada de extraordinário nela. Era tão comum que, no mínimo, seu nome era Maria. Não, não era uma vigarista. Se havia isso de vigarismo naquela história toda, era da parte de alguém que andava explorando aqueles pobres miseráveis. Mas, antes que eu me decidisse a favor ou contra o vigarismo da história, o menino me falou:

– Sente-se, por favor.

Sentei-me numa pedra que estava mais perto dele. Queria ver o menino bem de perto. Não havia muita luz. A lamparina era, apenas, um ouro avermelhado dentro de um círculo azulado. Mal deixava divisar a fisionomia do menino.

– Fique à vontade. O Sr. é jornalista, não é? Eu gosto de vocês, os jornalistas. Já tive bons amigos entre os jornalistas. E ainda os tenho. Outros me são desafetos, mas o são gratuitamente. Não sei se você vai conseguir escrever alguma coisa com esta luz tão fraca. Meu pai, todos os anos, pensa festejar o Natal de um modo mais alegre. Mas ainda não pôde mandar ligar a luz. (E riu). Aliás, muitos, como meu pai, não podem fazer isso. Seria bom que todos tivessem ao menos luz em suas casas na noite de Natal. Mas eu ainda não vi luz elétrica desde que nasci pela primeira vez. Posso dizer que nunca vim à luz, mas, somente às trevas. (Riu de novo). Estou brincando novamente e você está perdendo seu tempo. Com certeza você não veio até aqui para brincadeiras, mas para tratar de assuntos sérios. Logo na noite de Natal. Vamos. Que é que você quer saber de mim?

Fiquei desnorteado quando ele me fez esta pergunta. Eu já estava desejando que ele continuasse a falar, de tal maneira que não me desse tempo para fazer qualquer pergunta. O que era mesmo que podia perguntar? Arrisquei:

– O mundo está melhor ou pior do que...

– Claro que está muito melhor. Será que você não vê isso? Basta que você pense no esforço de união que está havendo no mundo. Já sei. Você vai falar da bomba atômica, da de hidrogênio, da guerra, dos foguetes. Tudo isso é medo. Os homens têm muito medo. Eles querem se unir, mas têm medo. Não condene os homens por isso. O medo é uma coisa pavorosa. Quem diz isso muito bem é o Ariano Suassuna, no Auto da Compadecida. Eu também já tive muito medo. Todos os homens o sentem. É terrível! O que falta nos homens é um pouquinho mais de boa vontade. No dia em que eles tiverem mais boa vontade, terão a paz.

Aproveitei a deixa:

– Você é entreguista ou comunista?

O menino sorriu e eu senti que fizera uma pergunta muito tola. Na verdade, eu já estava sem saber o que perguntar. Olhei de soslaio para a mãe. Ela continuava sentada ao lado do menino, no chão. Remendava uma roupa de trabalho do marido.

– Ainda há muita miséria no mundo. (Disse isso e suspirou um tanto tristemente). Imagino que há quem diga que eu sou culpado disso. Mas como é que sou culpado se eu mesmo sou vítima? Estou sempre nascendo nestas condições. Você já deve ter reparado como é nossa casa... Se é que isso pode se chamar casa... Meu pai é uma vítima da injustiça social. O que ele ganha não dá para nada. Aliás, por aqui pela redondeza há muitos na mesma situação. Já reparou como nós estamos conversando só sobre política? Dizem que isso é política... Mas o culpado foi você que me perguntou sobre o mundo. Os homens pensam que basta trocar o regime político ou econômico para serem felizes...

Eu ia perguntando o que seria necessário fazer para que os homens sejam mais felizes. Mas o menino olhou para mim com tanta bondade e tão fixamente que eu pigarreei e baixei a vista para não encontrar de novo os seus olhos fortes e bons.

– Está vendo? Dizem que eu não falo. Mas até agora só quem falou fui eu. E me sinto mais tagarela do que nunca. Eu sempre falo. Nem sempre, porém, tenho quem me ouça. Quando encontro alguém que tenha paciência de me ouvir (eu quase disse um “não apoiado”, mas me lembrei que eu não estava nem em academia literária, nem em assembleia legislativa, nem em almoço de homenagem) não paro mais de falar. É que eu gosto muito de conversar com os homens. A gente trocando ideias sempre se distrai e os homens andam muito preocupados. Geralmente, todos os que me vêm visitar estão estafados como se estivessem carregando pesadíssimos fardos. Não pense que consigo sempre desfazer, aliviar este cansaço. Há muitos que saem daqui mais preocupados do que estavam antes. Mas sei que estes voltarão.

Olhei o relógio. Duas e meia da manhã. Não era possível! Eu já estava ali há mais de duas horas? Sentado naquela pedra dura? Quase não consegui me levantar. As pernas estavam dormentes e os rins doloridos. Não teria sido só a posição, mas, também, a umidade. A água quase minava da parede. Num canto havia um resto de fogueira. Brasa e cinza. Foi olhando para a fogueira que percebi dois vultos. Apertei bem os olhos discretamente e vi um burro e um boi. Fiz uma pergunta já de pé:

– Dizem que sempre há anjos quando você nasce?

– Anjos? Há, sim.

– E por que sempre que você nasce há, também, um burro e um boi?

Ele me olhou como da vez que eu ia perguntando o que era preciso fazer para que os homens fossem felizes. Pensei que não ia responder, mas respondeu:

– São poucos os que entendem os símbolos. Muito menos os que acreditam neles.

Vi que ele já estava com sono. Eu também. Despedi-me. Não me preocupei mais em descobrir, no pai e na mãe, sinais de vigarismo. Saí. O céu estava cheio de estrelas, mas a noite estava muito úmida. Fora, senti novamente o cheiro de alfazema e de samambaia. Um galo cantou numa árvore do quintal vizinho. Resolvi, de vez, voltar para casa. Quando dei o primeiro passo, me fiz a seguinte pergunta:

– Será que adianta eu escrever isso? Quem terá boa vontade para acreditar nestas coisas?...


(*) Publicado originalmente em O Jornal, Manaus, 27 de novembro de 1966. Garimpagem: Roberto Mendonça.

(L. Ruas ou Luiz Ruas (1931-2000) foi poeta, ensaísta, cronista, professor universitário, ativista político e sacerdote católico.)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O poeta como um clown







O poeta como um clown

Rogel Samuel



Russell S. King, da University of Nottingham, escreveu um texto muito elucidativo para a compreensão de “Aparição do clown”: “The poet as clown: Variations on a theme in nineteenth-century French poetry” (Orbis Litterarum - International review of Literary Studies, Volume 33 Issue 3, Pages 238 – 252 Published Online: 1 Jun 2007).

O auto-retrato do artista com um clown foi um tema generalizado pelos pintores do Século Vinte, e este modo de se ver partiu dos poetas franceses do Século Dezenove.

Houve uma espécie de metonímica fusão do Pierrô com o Arlequim, o bobo da corte, o showman vagante, o palhaço de circo e o violista cigano.

Segundo o pesquisador, foi Théodore de Banville o primeiro que identificou o clown com o poeta, nas suas "Odes funambulesques", de 1857, na aspiração de idealizar a realidade, como um acrobata na corda bamba.

Depois vieram Baudelaire, Mallarmé, Laforgue, e mesmo o português Fernando Pessoa.

Marlarmé se via como um ator decadente, uma vítima. O clown de Verlaine expressava a ambiguidade e plasticidade da estética literária. Mallarmé, o "Le Pitre châtié". Laforgue via no clown o diletante frívolo, uma espécie de Hamlet que era também um dandy que fazia o papel de simplório. Pessoa, como se sabe, disse que "o poeta é um fingidor", isto é, um clown.

Todos esses poetas faziam da simbologia do clown a imagem do escritor como um fingidor, um ator que cinicamente enganava seu leitor e a sociedade de seu tempo, numa manifestação contra o realismo da realidade de seu tempo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

APARIÇÃO DO CLOWN




APARIÇÃO DO CLOWN


Padre Nonato Pinheiro

da Academia Amazonense de Letras



O poema que o padre Luiz Augusto de Lima Ruas chega de dar a lume, oferece margem a vários estudos, entre os quais podemos ressaltar o processo amodernado de sua expressão literária (tema que vem sendo objeto de estudos e debates nestes últimos tempos) e a própria interpretação. Quanto a este particular  o da interpretação da mensagem do autor  fê-lo em alto estilo e largo fôlego o acadêmico André Araújo, que escreveu para prefácio uma de suas mais suculentas produções. Creio mesmo que poucos compreenderiam o alcance dessa mensagem sem a mão guiadora do prefaciador, que talvez pressentindo os apuros do leitor (evidentemente me refiro ao leitor “leigo”), quis logo oferecer-lhe um par de pupilas devassadoras para alcançar num flagrante o sentido e a beleza do poema.

Antes de me reportar à analise da obra, no tema profundo e capital que lhe compõe o arcabouço e lhe revela todo o “substratum”, desejo tecer algumas considerações acerca da linguagem do poema.

Como se sabe, ultimamente vem ocupando a atenção de não poucos estudiosos a questão concernente à expressão literária. Assim da prosa como da poesia. Eu próprio já me ocupei neste cotidiano associado, do concretismo na poesia, tentando dar uma súmula de minhas leituras relativamente ao assunto. Agora já se tenta outra experiência: o da prosa concreta. Venho acompanhando com o mais vivo interesse (não com simpatia, confesso de peito aberto, mas com aquela intenção de que, deseja acompanhar o que se passa no Brasil e no mundo, no campo das letras) alguns debates que se estão travando na imprensa metropolitana, dos quais participam, principalmente, os intelectuais Reynaldo Jardim, Assis Brasil, Theon Spanudis e A. Casemiro da Silva. Reynaldo Jardim é o pioneiro no Brasil dessa tentativa no campo da prosa concreta.
Entendem alguns que há necessidade de se plasmar nova expressão literária, desvinculada ou desvencilhada da tradicional, da que recebemos em legado de nossos antepassados. Alguns poetas e prosadores não hesitaram em romper com essa tradição e passaram a cometer em suas obras certos “atrevimentos” sintáticos, certas novidades “insólitas” no campo da linguagem, imprimindo em seus trabalhos sintomas evidentes de uma ruptura (pouco importa se tenta ou violenta) com a disciplina gramatical que aprendemos nos bancos escolares. Para não me referir à poesia, em cujo campo as ousadias são mais incisivas, poderei citar o caso, aqui no Brasil, do escritor Guimarães Rosa, cuja expressão literária representa um abalo da sintaxe portuguesa, sem embargo de representar, como acentuou com muita propriedade Assis Brasil, a “marca de um narrador clássico, de ressonâncias épicas”.

Outros entendem que não é possível o desvinculamento da tradição, fato que só se conseguiria com a supressão da própria linguagem. Reynaldo Jardim, porém, não pensa desse modo. Para ele, “se há alguma coisa nova a dizer (o galicismo sintático não me pertence) já não pode ser dita, esteticamente, com o material em circulação” (Jornal do Brasil, 21.XII.1958). Como se vê, Jardim fica adstrito ao campo “estético”. Outros ainda opinam que não é possível continuarmos com a mesma expressão sintática tradicional, nesta época em que o homem já “enfadado de viver neste planeta começa a farejar os astros, na ânsia insopitável de conhecer outros mundos”.

Confesso lealmente que não alcanço a necessidade de renunciarmos a velha sintaxe, que é a espinha dorsal de uma linguagem e a mais alta expressão do seu gênio, só porque estamos a pique de ir à Lua ou a Marte. Não compreendo porque o homem não possa levar consigo para os astros um volume da Divina Comédia, de Dante, ou o Hamlet, de Shakespeare, ou Os Lusíadas, de Camões, ou mesmo um romance de Jorge Amado. Não vejo a necessidade irrecorrível de se levar apenas prosa concreta e poesia concreta.

Com a nova fase interplanetária, que se vai abrir, quando o mundo se torna cada vez menor pela facilidade incrível de comunicação, meu ponto de vista é totalmente diferente. Sustento a tese (quem quiser, pense o contrário) de que ficaremos com uma só língua para expressão comum dos nossos sentimentos; ou o russo, ou o inglês, ou o francês, qualquer que seja o idioma. É evidente que o português está fora dessa cogitação; idioma que as nações supercivilizadas fazem questão de relegar ao ínfimo lugar. Prova disso é a declaração recente de um francês (li isso em Paris Match) que, regressando a Paris de uma viagem ao Rio de Janeiro, assim se expressou numa entrefala concedida aos ávidos noticiaristas de um grande jornal parisiense: “Não tenho palavras para exprimir o meu deslumbramento pelo Brasil. É, de fato, o país do futuro, onde se sente a palpitação de uma grandeza verdadeira. Trago, porém, ao lado desse deslumbramento, uma impressão dolorosa”. E o entrevistado concluiu, observando a expressão de interesse contido nos olhos arregalados dos jornalistas: “É que no Brasil se fala o português”.

Como quer que seja, creio que no mundo do porvir, ou em outros mundos que estão a ponto de serem descobertos, e cuja expectativa começa a provocar um estremeção nos códigos jurídicos, com a criação do “Direito Interplanetário” (quando teremos em nossa Faculdade a criação da cadeira?!) só se falará um idioma, sem sotaque, sem regionalismos, sem variantes léxicas ou sintáticas. Enquanto não se operar essa transformação radical, deixemos que os nossos poetas e especialmente os nossos ficcionistas se preocupem com a renovação da linguagem. Eu ainda vou ficando com a velha sintaxe tradicional, embora já me preocupe com o estudo da língua russa.
A verdade, porém, é que essa questão de renovação literária não é tão “nova” como se pensa. Muito antes de Joyce já se tratava desses processos. Daqui a pouco a coisa ficará tão velha como a Sé de Braga. Seja como for, vou acompanhando com olhos bem abertos todas essas inovações, mesmo em outras línguas. Em França há o caso curioso do romancista Michel Butor. Sabe o leitor como esse escritor narra. Simplesmente usando a segunda pessoa do plural.

Voltemos, porém, ao romance do padre Luiz Ruas. Não suponha o leitor que o talentoso sacerdote, sem favor uma das mais altas expressões culturais do nosso clero secular, e da nossa intelectualidade, seja um iconoclasta da linguagem tradicional, e já se exprima em prosa concreta ou poesia concreta. Nada disso. Preferiu um meio termo: conservou a sintaxe, mas aboliu as notações sintáticas e as maiúsculas. Sabemos que as notações sintáticas são os sinais ou símbolos que auxiliam a compreensão do escrito, determinadas pelo sentido e pela necessidade de respirar. São os sinais de pontuação. O padre Ruas, salvo engano de minha parte, só conservou no poema o ponto e o ponto de interrogação. Salvo engano também, só encontrei três vírgulas em toda a brochura (pp. 33 e 37), o que me leva a imaginar que se trata de cochilos do compositor, ou linotipista.

O que interessa, contudo, (e é o que só importa) no poema do padre Luiz Ruas é a mensagem, a um tempo lúcida e dolorosa, do seu poema. Já lhe fez a exegese profunda e minuciosa a pena autorizada de André Araújo. O poema “canta a excelsa angústia humana, representada na figura exótica do clown” (p.11). Efetivamente, é uma análise (poética, é verdade, mas ao mesmo tempo profunda e até angustiada) da alma humana, ou do homem, essa estranha simbiose, ou esse amálgama indecifrável e apaixonante de anjo e demônio. O poeta fez o seu descobrimento. Muitos já fizeram no passado o descobrimento desse “velho clown” (para me servir da palavra inglesa, já que o poeta encontrou nela mais sabor do que nos velhos vocábulos “bufão”, “truão”, “arlequim”, ou mesmo no tradicional “palhaço”. Alguns o fizeram em grande estilo, como o brilhante Shakespeare e o fabuloso Molière, dois profundos analistas da alma humana, dois insignes descobridores de “clowns”.

O palhaço tem sido objeto de numerosos estudos através dos tempos. Muitos zombaram dessa figura estranha, encarnação viva do disfarce. A verdade é que o palhaço também zomba, muitas vezes, dos espectadores. Lembro-me de uma cena num dos palcos de França. Toda a representação do palhaço consistia numa longa e saborosa gargalhada. O teatro repleto. O palhaço ria, ria a bandeiras despregadas, e no fim elucidou a longa gargalhada. “Vocês pagam para ver um palhaço no palco; eu recebo para ver mil palhaços na platéia, nas frisas, nos camarotes e nas arquibancadas...”

A verdade verdadeira é que só descobrimos o “clown” nos outros, e nunca em nós mesmos. Parece que Jesus deu a chave do enigma, ao declarar no seu Evangelho: “Como vês a palha no olho do teu irmão; e não vês a trave no teu? Ou como ousas dizer a teu irmão: deixa que eu tire a palha do teu olho, tendo uma trave no teu? Hipócrita: tira primeiro a trave do teu olho, e então tratarás de tirar a palha do olho do teu irmão”. (Mateus, 7: 3-5.)

O autor veio renovar o eterno tema do destino do palhaço, que é sempre “fundir o alegre riso e o triste pranto” (p.17). Reconhece (p.25) que ele se parece “com o menino que somos e com o inferno que não deixamos de ser”, carregando aquele “fado torturante de ser ave sem poder voar”, “de ser clown”. (p.34)


Não se pense que o padre Luiz Ruas descobriu a América. Ele próprio já havia descoberto o “clown” há muito tempo. Afirmou, à p.17, que verificou ser inútil o seu esforço “de descobrir integralmente o clown”. É força de expressão. Eu e ele, e todos os padres, descobrimos integralmente e diariamente o “velho clown” nas páginas do Breviário Romano, leitura cotidiana e obrigatória para todos nós. Nos salmos bíblicos, que compõem o travejamento, ou o vigamento da oração litúrgica está o “velho clown”, vivo e inconfundível, com o riso e o pranto, com as grandezas e as misérias, com os vôos altaneiros e as depressões dolorosas e letais. Antes que Molière compusesse as suas Précieuses ridicules, já Davi e os demais compositores dos salmos punham no maior relevo aquela “interrogação verde no cenário de carmim”, da página 21. Nos salmos deparamos vivo esse como “precioso ridículo”, que é o homem ou essa “preciosa ridícula”, em vez de um Molière zombeteiro, encontrou um analista profundo e misericordioso na inspiração suprema e divina do Espírito Santo. A verdade é que aí está o “clown”, não em silhuetas mas na sua “dimensão total” (p.29).

Como quer que seja, o poeta padre Luiz Ruas quis re...car o velho tema. Quis “redescobrir” o “velho clown”, e o fez em páginas cintilantes, com trechos soberbos e admiráveis como os de “aviso” e “legado”, este último uma esplendida apoteose de asas onde só falta aquele par de asas divinas, que é o mais alto vôo e o mais alto abrigo para o “velho clown”, e por cuja sombra suspirava o salmista: “sub umbra alarum tuarum protege me” (Salmo 16: 8).

O tema é fascinante. Ortega y Gasset também versou, com o esplendor do seu estilo grandioso, o assunto, velho é sempre novo. Afinal tinha razão o velho João Ribeiro, quando afirmava: “não há questões novas, o que há são questões velhas que se renovam periodicamente”. O padre Luiz Ruas, com a argúcia de seu espírito perquiridor e a opulência vigorosa de sua imaginação de poeta, produziu um poema magnífico, onde há lances de rara sensibilidade e descrições de faiscante colorido. A publicação do livro, em feitio moderno, com algumas tendências de renovação literária, representa uma vitória do autor e uma conquista das próprias letras no cenário da nossa intelectualidade. ◊






1 Coluna Letras & Livros, Jornal do Commercio, 5 de fevereiro de 1959.

Testemunho sobre Aparição do clown






Testemunho sobre Aparição do clown

Jorge Tufic




Esse ponto longínquo de nossa vida, o janeiro de 1959, se constitui num dos mais altos da literatura amazonense, em particular do movimento Madrugada. L. Ruas, tal como assinava os seus livros, artigos e crônicas, surpreende a todos com este seu longo poema, ao mesmo tempo estranho e revolucionário, mas no fundo mesmo uma projeção corajosa da personalidade do autor.

O clown de Ruas é o ator ou o dançarino do universo que ele consegue libertar das amarras sociais e dos preconceitos irremovíveis, um corpo astral de silêncios e coisas que se transformam, ao menor toque de um bastão luminoso. Basta dizer que até hoje ninguém soube interpretá-lo, seja como texto, seja como fosse a partitura volátil de uma confissão transbordante, plena de movimentos em busca de uma unidade de sons e palavras, afinal conquistada.

Terá sido difícil a esse religioso evitar uma prática antiga daqueles que, embora poetas, se devotam a Deus ou a Krishna, e acabam por esquecer que à poesia não cabe o papel de servir, mas de ser servida.

Pois eu considero o Aparição do clown uma batalha entre a cruz, como dever a Deus, e a liberdade, como dever à Deus e à poesia. Uma forma terrena e divina de conciliação dos extremos, mas onde, graças à Poesia, os extremos também desaparecem, enquanto libertam.

Meu testemunho sobre L. Ruas abrange esse largo período de nossa existência, que vai da fundação do Clube da Madrugada, em novembro de 1954; atravessa os anos selvagens da ditadura militar; sangra nos tempos em que o poeta esteve longe de nosso convívio; termina com o seu falecimento e a minha transferência domiciliar de Manaus para Fortaleza.

Foram memoráveis os nossos encontros de final de semana!

Memoráveis os seus discursos ao pé do mulateiro, na Praça da Polícia Militar!

Memoráveis as missas que celebrava!

E os porres, também, com muita dignidade!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Os 50 anos de Aparição do Clown








Os 50 anos de Aparição do Clown

http://palavradofingidor.blogspot.com/
No próximo sábado, 31 de janeiro de 2009, é o aniversário de 50 anos de publicação do livro Aparição do Clown, de L. Ruas. Para comemorar essa data, a Livraria Valer realizará a partir das 10h da manhã um encontro com estudiosos e pessoas interessadas na obra do escritor.

Ao longo de cinco anos, o historiador Roberto Mendonça pesquisou sobre a vida e a obra de L. Ruas; durante o evento, ele apresentará o resultado de seu estudo. Em seguida, a palavra será aberta aos presentes. O evento comemorativo contará ainda com exposição de livros e fotos do homenageado, leitura de poemas feitas por integrantes do Clam – Clube Literário do Amazonas, e apresentação do músico Mauri Marques, que musicou alguns poemas de L. Ruas.

Na ocasião, a segunda edição do livro Aparição do Clown estará a venda com 50% de desconto.

Considerada uma das mais importantes obras da literatura amazonense, Aparição do Clown é um longo poema, ocupando as 105 páginas do livro, reeditado pela Valer, dentro da Coleção Resgate.

Aparição do Clown é um poema místico e filosófico. Na apreciação do Professor Tenório Telles, o livro reproduz simbolicamente a trajetória de Cristo na terra, a promessa de redenção do mundo, a busca do homem, um palhaço no palco da vida a procura da sua verdadeira face, em sua tentativa de reencontro com o divino.

Sacerdote da arquidiocese de Manaus, Luiz Augusto de Lima Ruas nasceu em Manaus em 1931, tendo exercido seu ministério sacerdotal nas paróquias de Educandos, Colônia Oliveira Machado, dos Remédios e Sagrado Coração de Jesus, onde se despediu da atividade religiosa. Ao tempo de sua ordenação, em 1954, passou a lecionar algumas disciplinas em colégios, como o Colégio Estadual (Francês), o Instituto de Educação do Amazonas (Psicologia) e no então Instituto Christus, que teve sempre sua colaboração. Também foi professor de Psicologia, na Faculdade de Filosofia, quando esta foi criada. Iniciou sua atividade jornalística no Universal, jornal da Igreja Católica, que circulava aos domingos, de 1953 a 1958.

Adotando o nome literário de L. Ruas, passou, em 1956, a colaborar com o jornal A Crítica. Dispunha de uma coluna diária, "Ronda dos Fatos", onde cuidava com propriedade de problemas da vida humana. Deixou esse jornal em 1960. Em 1955, a convite de Jorge Tufic e encaminhado por Bosco Araújo, juntou-se ao movimento literário Clube da Madrugada, do qual foi presidente no biênio de 1957-58. Colaborou fartamente no Suplemento, editado pelo Clube, enquanto este circulou encartado em O Jornal, no período de 1962-72.

L. Ruas também esteve envolvido no movimento cinematográfico da cidade, escrevendo para a revista Cinéfilo, que circulou em quatro edições. Todavia, o movimento militar de 1964 fez o padre Ruas amargar dias de prisão, junto com outros companheiros intelectuais e políticos. Faleceu em 1º de abril de 2000, estando sepultado no cemitério de São João Batista.

Obras publicadas:

· 1959 – Aparição do Clown, poesia.
· 1970 – Linha d´Água, crônicas reunidas.
· 1979 – Os Graus do Poético, ensaios.
· 1985 – Poemeu, poesia. Prêmio de Poesia Governo do Estado do Amazonas em 1970.

L. Ruas colaborou também como cronista na Rádio Rio Mar.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

ROBERTO MENDONÇA: APRESENTAÇÃO DO BLOG




ROBERTO MENDONÇA: APRESENTAÇÃO

ESTE BLOG reproduz a obra poética e parte da produção literária em prosa de L. Ruas. Uma fração da prosa porque ainda não estão aqui os textos sobre Cinema, cuja arte ele ajudou a disseminar em cineclubes de nossa Cidade, que se divertia no cine Guarany e outras salas. Aqui estarão inseridas as considerações que L. Ruas produziu sobre alguns livros de escritores amazonenses. Mas há um pouco mais de ousadia. É quando o padre-poeta estendeu suas considerações a respeito de poetas franceses mais festejados. Na verdade, uma de suas paixões e outra fonte de inspiração.

NASCIDO EM MANAUS, Luiz Augusto de Lima Ruas (1931-2000) foi ordenado sacerdote, em 1954. E consagrado poeta por Aparição do Clown (1958), quando presidente do Clube da Madrugada (1957-58). Ensinou por anos na UFAM e colégios de Manaus. E atuou como cronista na Rádio Rio Mar. Enfim, escreveu (em abundância!) na imprensa sob diversos assuntos. Cinema e Críticas Literárias resgata, pois, um naco desta contribuição jornalística. Roberto Mendonça

CURRICULUM VITAE





CURRICULUM VITAE

(NA FOTO OS PADRES SAO: ONIAS, RUAS, NORMANDO E JUAREZ. OS JOVENS AGACHADOS SAO SEMINARISTAS, FOTO DE 1957).

I. - IDENTIFICAÇÃO
Nome: Luiz Augusto de Lima Ruas
Nascimento:
a) Data: 28 de novembro de 1931
b) Local: Manaus-Amazonas
Filiação: Horizontino Ruas e Emilia de Lima Ruas
Estado Civil – solteiro
Residência: Avenida Joaquim Nabuco, 1638 – Manaus

II. - VIDA ESCOLAR
1. Curso primário – de 1937 a 1942 – Manaus
2. Curso Secundário – 1943 a 1948 – Seminário São José – Manaus
3. Curso de Filosofia – 1949 e 1950 – Seminário Arquidiocesano de Fortaleza.
4. Curso de Teologia – 1951 a 1954 – Seminário Arquidiocesano de Fortaleza – do Rio de Janeiro e de Manaus.

III. – TITULOS PROFISSIONAIS
Registro da Diretoria de Ensino Secundário do Ministério da Educação e Cultura nº 41.923(D) – Processo nº 239.457/64, de 03 de novembro de 1964, para as seguintes disciplinas:
a) Francês – 1º ciclo;
b) Filosofia – 2º ciclo.

IV. - FUNÇÕES E CARGOS TÉCNICOS E ADMINISTRATIVOS EXERCIDOS.
1. Membro do Conselho Estadual de Ensino – de 1959 a 1961;
2. Diretor da Faculdade de Filosofia do Amazonas – 1963 a 1964;
3. Membro do Conselho Administrativo da Faculdade de Filosofia do Amazonas – de 1962 a 1964;
4. Chefe do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Amazonas – 1965 a 1969;
5. Assessor Técnico da Fundação Cultural do Amazonas – de 1968 a 1969;
6. Membro do Conselho Universitário da Universidade do Amazonas – de 1969 a 1971;
7. Representante do Departamento de Ciências Humanas no Conselho Departamental da Escola de Serviço Social André Araújo da Universidade do Amazonas – de 1970 a 1971;
8. Chefe do Departamento de Ciências Sociais do Instituto de Ciências Humanas da Universidade do Amazonas – 1973;
9. Chefe do Departamento de Teoria e Fundamentos da Faculdade de Educação da Universidade do Amazonas – 1978 a 1979;
10. Representante do Departamento de Teoria e Fundamentos no colegiado do Curso da Faculdade de Educação da Universidade do Amazonas – de 1980 a 1982;
11. Membro da Comissão Verificadora do Curso de Filosofia do CENESC – representante da UA – 1985.



V. – MAGISTÉRIO OFICIAL
1. Professor substituto de Grego no Colégio Estadual do Amazonas – 1958;
2. Professor substituto de Sociologia no Instituto de Educação do Amazonas – 1962;
3. Professor substituto de Francês no Instituto de Educação do Amazonas – 1962;
4. Professor de Psicologia Educacional no Instituto de Educação do Amazonas – 1962;
5. Professor de Psicologia Geral da Faculdade de Filosofia do Amazonas – de 1961 a 1964;
6. Professor de Estética da Faculdade de Filosofia do Amazonas – 1963;
7. Professor substituto de Francês no Colégio Estadual do Amazonas – de 1968 a 1969;
8. Professor de Psicologia (2º ciclo) no Colégio Estadual do Amazonas – 1969;
9. Professor de Psicologia Educacional em curso de aperfeiçoamento para professores de ensino médio promovido pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Amazonas – 1968 a 1969;
10. Professor de Psicologia Geral I na Universidade do Amazonas – 1965 a 1985;
11. Professor de Psicologia Geral da Universidade do Amazonas – 1980 a 1985.

VI. – MAGISTÉRIO PRIVADO
1. Professor de Teologia Dogmática no Seminário Arquidiocesano São José de Manaus – 1954 a 1957;
2. Professor de Psicologia Geral no Seminário Arquidiocesano São José de Manaus – 1954 a 1958;
3. Professor de Ética Geral e Profissional na Escola de Serviço Social de Manaus – 1957 a 1962
4. Professor de Francês no Instituto Christus do Amazonas;
5. Professor de Educação Artística no Instituto Christus;
6. Professor de Psicologia Geral e da Personalidade na Escola de Serviço Social de Manaus – 1967 a 1972;
7. Professor de Organização Social e Política Brasileira (OSPB) no Instituto Christus do Amazonas – 1969 a 1972.


VII. – PARTICIPAÇÃO EM SIMPÓSIOS, SEMINÁRIOS etc.
1. Simpósio Brasileiro de Administração Escolar – Porto Alegre/RS – 1963
2. Seminário de Revisão Critica da Cultura no Amazonas–1967
3. Seminário de Reforma dos Currículos de Ensino Médio e Primário do Sistema Estadual de Educação promovido pela Secretaria de Educação e Cultura do Amazonas – 1968
4. IV Simpósio Brasileiro de Administração Escolar. Manaus–1969
5. I Seminário de Organização Social e Política Brasileira promovido pela Inspetoria Seccional do Ensino Médio de Manaus – 1971
6. Conferencista da Semana de Psicologia promovida pelo Departamento de Teoria e Fundamentos de Educação e pela Assessoria Especial para Extensão Universitária – 1979
7. Expositor do Painel Eutanásia e Aborto do Seminário de Ética Medica do Conselho Regional de Medicina do Amazonas – 23 a 25 de outubro de 1985.

VIII. – ARTIGOS PUBLICADOS
1. Reflexões sobre o objeto da Psicologia – O Jornal – Manaus
2. O símbolo da serpente no Pequeno Príncipe – O Jornal – Manaus

IX. – LIVROS
1. Aparição do Clown (poema) – Manaus – 1958
2. Linha d’Água (crônicas) – Manaus – 1970
3. Os Graus do Poético (ensaios) – Manaus – 1979
4. Poemeu (poesia) – Manaus – 1985
5. Palavras, Palavras, Palavras... – inédito.

X. – ASSOCIAÇÕES CULTURAIS
1. Membro do Clube da Madrugada
2. Membro da União Brasileira de Escritores (UBE/AM)
3. Membro honorário da Associação de Psicologia do Amazonas



Manaus, 20 de abril de 1988



LUIZ AUGUSTO DE LIMA RUAS